Rapidinhas literárias III

"Ele abriu a janela ao meio, o que encheu a sala de ar frio.
- Anda cá Griet.
Poisei o trapo no parapeito e dirigi-me para junto dele.
- Espreita pela janela.
Espreitei. Estava um dia ventoso, com nuvens que desapareciam por trás da torre da Igreja Nova.
- De que cor são aquelas nuvens?
- São brancas, senhor.
- São? - perguntou ele, erguendo ligeiramente as sobrancelhas.
Deitei-lhes mais uma olhadela.
- E cinzentas. Talvez vá nevar.
- Vá lá Griet, consegues fazer melhor do que isso. Pensa nos teus legumes.
- Nos meus legumes, senhor?
Ele moveu a cabeça ligeiramente. Estava outra vez a irritá-lo. O meu maxilar contraiu-se.
- Pensa em como separaste os brancos. Os nabos e as cebolas. São do mesmo branco?
De súbito compreendi.
- Não. O nabo tem verde a cebola amarelo.
- Exactamente. Então que cores vês nas nuvens?
- Há azul nelas - respondi depois de as examinar durante alguns minutos. E... amarelo também. E algum verde! - Estava tão entusiasmada que até apontei. Tinha olhado para nuvens durante toda a vida mas era como se as visse pela primeira vez naquele momento.
Ele sorriu.
- Hás-de descobrir que há pouco branco puro nas nuvens, embora as pessoas digam que são brancas."
Tracy Chevalier, "Rapariga com Brinco de Pérola"
4 Comments:
O homem era um imbecíl: são brancas sim senhor! Provavelmente drogava-se e estava numa trip psicadélica... E claro que, perguntando a uma gaja que tem tanto QI como a tela em que foi pintada... ela dizia-lhe que via elefantes cor-de-rosa a voar até!
LOL
Estou mesmo sensível e romântico hoje...
Já me estragaste a beleza da cena... :) a insensibilidade é do excesso de trabalho!
Hehe!
Deve ser, estou ainda mais implicativo que o habitual-insuportável! Se eu tivesse dupla personalidade, uma delas matava-se (só para teres uma ideia)!
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